Atualizações caso Lindsay Clancy - setembro de 2026

No dia 4 de setembro, o julgamento de Lindsay Clancy terminou sem um veredicto. Depois de sete dias de deliberações, os 12 jurados não conseguiram chegar a uma decisão unânime sobre a responsabilidade criminal de Lindsay, tendo apenas um jurado dissidente. O juiz William Sullivan já tinha dado aos jurados uma última instrução para tentar superar o impasse, mas eles voltaram a informar que não conseguiriam chegar a um acordo. A defesa ainda tentou impedir a declaração de anulação do julgamento e chegou a recorrer emergencialmente à Suprema Corte de Massachusetts, mas o pedido foi rejeitado e o julgamento anulado.

Lindsay na audiencia de 29 de setembro



Depois da anulação, os jurados começaram a falar publicamente. As juradas Roni Carlson, presidente do júri, Paula Devlin e Kellie Farina contaram como foram as deliberações. Segundo elas, a posição inicial dos jurados não era simplesmente de 11 contra 1. O grupo passou por diferentes configurações antes de chegar ao impasse. Paula Devlin contou que, em determinado momento, a situação chegou a dez contra dois e que os jurados passaram dias discutindo e tentando convencer aqueles que ainda discordavam. Depois, um deles mudou de posição e restou apnas um jurado defendendo a condenação. A maioria dos jurados acreditava que havia dúvida razoável sobre a responsabilidade criminal de Lindsay e que, portanto, ela deveria ser considerada inocente.


Um dos relatos mais importantes veio de Roni Carlson. Ela afirmou que o jurado dissidente chegou a reconhecer, durante as discussões, que tinha dúvida razoável sobre a responsabilidade de Lindsay, mas mesmo depois de admitir essa dúvida, ele não votava por inocência, conforme prevê a lei do estado. Essa versão ganhou enorme importância porque a defesa tinha argumentado justamente que o jurado não estava aplicando corretamente a instrução jurídica sobre dúvida razoável. 


Paula Devlin também descreveu o ambiente das deliberações e disse que o jurado dissidente era muito difícil de convencer. Nick Dargie, outro jurado, apresentou posteriormente mais detalhes. Ele disse que várias vezes pediu ao homem que apontasse qual evidência sustentava sua posição, mas que não recebia uma resposta específica. Dargie também afirmou que o jurado usava o celular durante as deliberações e relatou um episódio em que ele pegou uma das faixas de exercícios usadas como evidência no processo, retirou o objeto da embalagem, amarrou a faixa em uma garrafa de água e começou a puxá-la. Isso chamou a atenção dos demais jurados.


Juradas do caso Lindsay Clancy



As entrevistas também mostraram como o depoimento de Patrick Clancy marcou alguns dos jurados. Paula Devlin disse que o depoimento de Patrick estava entre os elementos que mais pesaram em sua avaliação do caso. Ela destacou principalmente o fato de ele ter falado sobre Lindsay sem tentar transformá-la em uma pessoa completamente diferente daquela que conhecia. Para Devlin, isso ganhou importância porque o julgamento apresentou uma grande quantidade de informações sobre a relação de Lindsay com os filhos, sua saúde mental e a deterioração de seu estado psicológico antes das mortes.


Nick Dargie, jurado do caso Lindsay Clancy



Outro elemento que chamou atenção dos jurados foi o depoimento do psiquiatra Phillip Resnick, especialista em filicídio, que testemunhou pela defesa. Resnick apresentou a ideia de que Lindsay poderia ter acreditado que os filhos não ficariam seguros sem ela e que, dentro de seu estado mental, poderia ter entendido que perder a vida junto com eles era uma maneira de protegê-los. Essa interpretação ficou conhecida no processo como filicídio altruísta.


Enquanto os jurados davam entrevistas, a defesa começou a tentar impedir que um novo julgamento acontecesse. Kevin Reddington passou a argumentar que a declaração de anulação do julgamento não tinha sido necessária e que o juiz deveria ter lidado de outra maneira com o impasse provocado pelo jurado dissidente. Reddington invocou a proteção constitucional contra dupla persecução penal, argumentando que submeter Lindsay novamente a julgamento depois de todo aquele processo não deveria acontecer nas circunstâncias atuais.


Em seguida, surgiu outra informação sobre o jurado dissidente. Reportagens revelaram que ele tinha sido acusado de violência doméstica em 2021. Segundo um relatório policial, a acusação envolvia uma discussão com a esposa e uma alegação de agressão. Ele declarou-se inocente e a acusação acabou arquivada. A divulgação dessa informação fez com que a defesa questionasse se o jurado havia fornecido corretamente todas as informações exigidas durante a seleção do júri. A existência dessa acusação, por si só, não significa que o jurado estivesse impedido de participar do julgamento, e a questão passou a ser saber o que ele declarou durante o processo de seleção.


No dia 18 de setembro, o próprio jurado dissidente apresentou sua versão por meio de uma declaração divulgada por seu representante. O jurado, que se chama Michael Desronvil, disse que não tinha dúvidas sobre a responsabilidade criminal de Lindsay. Ele afirmou que tentou apresentar diferentes teorias durante as deliberações, mas que era interrompido pelos outros jurados e que suas posições eram interpretadas como se ele estivesse ignorando as evidências. Desronvil disse que, na visão dele, as provas físicas, as testemunhas e os elementos apresentados pela promotoria mostravam que Lindsay sabia exatamente o que estava fazendo e havia premeditado.


Michael Desronvil, jurado dissidente



Essa declaração entrou em choque direto com o relato de algumas das outras juradas. De um lado, havia a versão de que ele reconheceu possuir dúvida razoável e se recusou a aplicá-la. Do outro, ele afirmou que não tinha dúvida alguma e que sua posição estava baseada nas provas apresentadas durante o julgamento. 


No dia 20 de setembro, Patrick Clancy falou publicamente em uma entrevista ao programa 60 Minutes, da CBS. Eu já fiz um vídeo aqui sobre essa entrevista, então dá uma olhadinha lá depois para entender melhor. Foi sua primeira grande entrevista televisiva depois do julgamento. Patrick falou sobre a perda dos três filhos, sobre sua vida depois da tragédia, sobre Lindsay e também sobre as teorias que surgiram nas redes sociais acusando-o de ter alguma participação nas mortes. Ele rejeitou essas acusações e falou sobre o impacto que elas tiveram em sua vida.


Patrick Clancy no 60 Minutes



Patrick também falou sobre a relação com Lindsay e sobre o fato de ter dito que a perdoou. Ele explicou que não enxergava a situação simplesmente como a história de uma mulher que decidiu matar os próprios filhos, mas também como uma tragédia envolvendo uma doença mental grave. Patrick contou que Lindsay havia enfrentado uma deterioração importante da saúde mental depois do nascimento de Callan, passou por períodos de falta de sono, depressão e pensamentos intrusivos e chegou a ser internada voluntariamente para tratamento. Depois das mortes, Patrick também contou que perguntou a Lindsay sobre o que havia acontecido e que ela disse não se lembrar dos acontecimentos de maneira clara, descrevendo a experiência como algo parecido com um sonho.


Patrick falou ainda sobre os quatro dias em que Callan permaneceu vivo depois de ser encontrado. Patrick contou que segurou o filho e que Callan faleceu em seus braços. Ele também falou sobre a vida que construiu depois da tragédia e sobre seu novo casamento com a médica Rachel Danis.


Enquanto isso, a defesa continuava tentando obter informações sobre o jurado dissidente. Os advogados pediram acesso a documentos relacionados à seleção dos jurados e levantaram questões sobre um possível uso de telefone durante as deliberações, além de outras circunstâncias envolvendo a atuação de Desronvil. Também pediram que o juiz conduzisse uma investigação sobre o jurado.


O advogado de Desronvil reagiu e defendeu o direito de seu cliente de discordar dos outros jurados. A posição apresentada por ele foi que o jurado tinha o direito de interpretar as provas de maneira diferente e que uma pessoa convocada para o júri não deveria ser submetida a uma espécie de punição pública simplesmente porque ficou sozinha em uma determinada posição.


Na semana passada, a atenção sobre Desronvil aumentou ainda mais. Uma campanha de arrecadação de dinheiro foi criada para ajudá-lo depois das críticas e ameaças que recebeu. Ele chegou a receber 400 mil dolares. 


Na noite de 28 de setembro, Desronvil apareceu publicamente pela primeira vez em vídeo, na Fox News. Ele afirmou que queria que a atenção deixasse de estar concentrada nele e voltasse para Cora, Dawson e Callan. Disse que os três filhos eram as pessoas que não podiam falar por si mesmas e que não queria que a história deles fosse esquecida no meio da disputa que surgiu depois do julgamento.


E então chegou o dia 29 de setembro, quando Lindsay voltou ao tribunal para a primeira audiência desde a anulação do julgamento. E foi nesse momento que aconteceu uma mudança importante na estratégia da defesa. Kevin Reddington apresentou ao juiz William Sullivan um pedido para que Lindsay fosse considerada inocente por falta de provas suficientes. O argumento passou a ser que a promotoria não conseguiu demonstrar adequadamente que Lindsay matou os três filhos. Reddington chegou a dizer que existia uma falta total e completa de evidências de que ela havia cometido os crimes.


Kevin Reddington na audiência de 29 de setembro



Durante o julgamento, a defesa não contestava que Lindsay havia matado as crianças. A tese principal era que ela havia cometido os atos em um estado de psicose e, por isso, não tinha responsabilidade criminal. Na audiência de ontem, porém, Reddington apresentou a argumentação de que a própria autoria das mortes não tinha sido demonstrada de maneira suficiente pela promotoria.


Mas isso não significa que a defesa abandonou a tese da psicose. Reddington continuou sustentando hoje que Lindsay estava em estado de psicose no momento dos acontecimentos. Ele afirmou que os médicos que testemunharam no julgamento haviam apresentado evidências de uma doença mental grave e disse que as provas demonstravam de maneira clara que Lindsay estava psicótica. Portanto, a defesa passou a trabalhar com duas linhas: a insuficiência das provas para demonstrar a autoria e, ao mesmo tempo, a falta de responsabilidade criminal em razão do estado mental de Lindsay.


A promotoria, por sua vez, também fez uma distinção importante. As promotoras reconheceram que Lindsay apresentava problemas de saúde mental e que sua condição havia se deteriorado antes das mortes e não negaram as evidências de doença mental. O ponto de discordância estava na responsabilidade criminal.


Segundo a promotoria, Lindsay chegou à conclusão de que não queria mais viver e acreditou que os filhos não poderiam ser cuidados por outra pessoa como eram cuidados por ela. Para explicar a motivação de Lindsay a promotoria abordou o conceito de filicídio altruísta. A ideia não era que Lindsay estivesse simplesmente tentando tirar a vida dos filhos por maldade, mas que acreditava que estava fazendo algo em benefício deles.


Isso é importante porque esse conceito apareceu dos dois lados do julgamento, mas com interpretações diferentes. Phillip Resnick, especialista chamado pela defesa, apresentou o conceito para explicar como uma mãe em estado psicótico poderia acreditar que tiar a vida dos filhos era uma forma de protegê-los. Já o especialista da promotoria, Kirk Heilbrun, também havia discutido o conceito, mas para ele, Lindsay estava profundamente deprimida, pensava em se desviver e passou a considerar o que aconteceria com os filhos. Essa interpretação serviu à promotoria para sustentar que a existência de uma doença mental não significava automaticamente que Lindsay havia perdido a capacidade de compreender o que estava fazendo.


A acusação sustentou que isso demonstrava uma sequência de pensamento e decisão, e não necessariamente uma perda completa da capacidade de compreender a realidade ou distinguir o certo do errado.


O juiz William Sullivan não tomou hoje uma decisão sobre o pedido de absolvição apresentado pela defesa. Também não decidiu se um novo julgamento vai acontecer. As outras questões levantadas desde a anulação, incluindo a investigação sobre o jurado dissidente, o acesso a determinados registros das deliberações e o pedido da promotoria para limitar declarações públicas dos advogados, também ficaram sem decisão definitiva.


A promotoria apresentou um pedido de ordem de silêncio porque considera que a quantidade de entrevistas e declarações públicas depois do julgamento criou um ambiente que pode prejudicar a escolha de um novo júri. A acusação citou especialmente as entrevistas dadas por Reddington e a exposição pública do jurado dissidente. 


No final da audiência, Sullivan marcou a próxima etapa para 2 de novembro. Nessa data, o tribunal deve tratar das principais questões que continuam pendentes, incluindo os argumentos da defesa para impedir um novo julgamento, a investigação sobre o jurado dissidente e o pedido de ordem de silêncio apresentado pela promotoria. O juiz também indicou que o caso precisa avançar e que, caso um novo julgamento seja necessário, as partes devem começar a discutir quando ele pode acontecer.


Por enquanto, Lindsay continua sem um veredicto e temos que aguardar até 02 de novembro.


Fontes: