Caso Victoria Natalini
Por onze anos, a morte de uma estudante durante uma excursão escolar permaneceu sem uma resposta sobre quem tirou sua vida. Victoria Mafra Natalini tinha 17 anos e estava em uma viagem de estudos da Escola Waldorf Rudolf Steiner, na Fazenda Pereiras, em Itatiba, no interior de São Paulo, quando desapareceu. O que aconteceu entre o momento em que ela se afastou dos colegas e a localização do corpo no dia seguinte ainda é investigado, mas a história passou por uma mudança importante este mês, agora em setembro de 2026, quando um homem que já tinha aparecido nas investigações voltou ao radar da polícia e acabou preso por outro caso.
Victoria tinha 17 anos e estudava na Escola Waldorf Rudolf Steiner, em São Paulo. Em 11 de setembro de 2015, ela viajou com outros 33 estudantes para a Fazenda Pereiras, em Itatiba, no interior de São Paulo. A viagem fazia parte das atividades da escola onde os alunos realizavam um trabalho prático relacionado a matemática, topografia e agrimensura, com o objetivo de fazer um mapeamento detalhado da propriedade. Os estudantes foram divididos em grupos de 3 alunos para trabalhar em diferentes áreas da fazenda.
Na tarde de 15 de setembro, no penúltimo dia da viagem, por volta das duas e meia, ela disse aos colegas que precisava ir ao banheiro e que iria até a sede da fazenda, que ficava cerca de 800 metros a 1 quilometro de onde eles estavam. Essa foi a última vez que ela foi vista com vida.
Durante algum tempo, ninguém percebeu que ela estava desaparecida. Cerca de duas horas depois, quando finalizaram o trabalho de campo, os colegas procuraram os professores para saber de Victoria. A partir daí, começaram as buscas pela propriedade.
A fazenda era uma área rural extensa, com regiões de mata e terrenos utilizados para diferentes atividades. A escola cometeu o grande erro de colocar os próprios alunos para buscar por Victoria, colocando eles em risco, inclusive. Como não encontraram ela, por volta das 18h uma cozinheira da fazenda chamou a Defesa Civil, e só às 19h, um dos professores avisou a polícia. A familia foi comunicada por volta das 20 horas daquele dia.
Naquela noite, as buscas continuaram até por volta das 23h, que foi quando o pai de Victoria chegou ao local. Na manhã seguinte, elas foram retomadas com apoio de um helicóptero da Polícia Militar, que localizou o corpo de Victoria por volta das 8h, em uma área de mata da fazenda.
A primeira investigação não encontrou sinais externos evidentes de violência. O exame realizado pelo Instituto Médico Legal de Jundiaí registrou a causa da morte como indeterminada e indicou a possibilidade de uma morte natural.
Mas isso não fazia nenhum sentido para a família. O pai de Victoria, João Carlos Natalini, sabia que Victoria era saudável, praticava esportes e não tinha um histórico que justificasse a conclusão de uma morte súbita.
Também havia uma questão relacionada ao local onde o corpo apareceu. A adolescente disse que iria até a sede da fazenda, mas o corpo foi localizado em outra direção, em uma área afastada do trajeto. Para o pai, a posição em que Victoria foi encontrada também não combinava com a hipótese de um mal súbito. O corpo estava de bruços, com as mãos sob a cabeça, em uma posição que chegou a ser comparada à de uma pessoa dormindo.
João Carlos decidiu procurar especialistas por conta própria, contratou peritos independentes e começou a reconstruir o caso com documentos, laudos, depoimentos, informações sobre a propriedade e dados relacionados às pessoas que estavam na região naquele dia.
Essa investigação particular provocou uma mudança fundamental. Em 2016, um novo laudo oficial indicou que a causa da morte foi asfixia mecânica por sufocação direta. A partir dessa conclusão, a investigação passou a trabalhar com a hipótese de um crime. A família continuou reunindo informações e produziu um relatório impecável, super completo, sobre o caso. Eu disponibilizei lá no meu blog para vocês lerem.
Segundo esse relatório, havia livores, que são manchas que aparecem na pele após alguém perder a vida, em ambos os lados do corpo de Victoria. Assim, o corpo teria permanecido inicialmente deitado de costas, e depois foi colocado de bruços, posição em que foi encontrado. O relatório relacionou essa análise à possibilidade de o corpo ter sido movimentado depois da morte. O que leva a crer que Victoria foi movida após perder a vida.
Enquanto a família aprofundava essa investigação, outra questão passou a envolver a escola. A excursão tinha 34 estudantes e a família questionou a estrutura utilizada para supervisionar os adolescentes durante a atividade. Segundo João Carlos, não havia monitores suficientes para acompanhar todos os grupos de forma próxima, não havia comunicação por rádio entre as equipes e não existia um plano de contingência adequado para uma situação como o desaparecimento de alguém.
Outro ponto questionado foi o tempo até perceberem que Victoria tinha desaparecido, que foi mais de duas horas. A família também criticou a forma como organizaram as primeiras buscas com a participação de estudantes.
Essas questões chegaram à Justiça em uma ação de responsabilidade civil contra a escola. Depois de passar por várias instâncias, em fevereiro de 2026, a indenização foi estabelecida em um milhão de reais para o pai da Victoria. A decisão reconheceu a responsabilidade civil da escola pelas circunstâncias relacionadas à excursão e à morte da estudante.
Ao mesmo tempo, cinco profissionais ligados à escola passaram a responder a uma ação criminal por abandono de incapaz com resultado em perda da vida. A acusação envolvia a atuação dos professores e gestores responsáveis pela excursão. Nesse processo, os profissionais foram absolvidos criminalmente.
Enquanto essas disputas judiciais aconteciam, a família continuava investigando pessoas que estavam na região da Fazenda Pereiras no dia do desaparecimento. Um dos nomes que apareceu desde os primeiros anos foi o de Francisco Raimundo da Silva.
Francisco trabalhava na região da fazenda e tinha uma plantação próxima do local onde o corpo de Victoria foi encontrado. A família passou a analisar os deslocamentos dele, o veículo que utilizava, seus depoimentos e a relação dele com outras pessoas que estavam na área.
Segundo o documento, naquele dia Francisco usou seu carro para ir até a lavoura, o que a família disse que não era comum, pois ele nunca usava o carro para esse trajeto. Também havia uma informação de que Francisco e o irmão foram as únicas pessoas da família que saíram de carro naquele dia, e o Francisco foi visto regando a plantação, que ficava a poucos metros de onde Victoria foi encontrada. Na época, algumas estudantes mencionaram que tinham medo de um homem associado a uma “máquina de água” usada para regar a lavoura.
Em depoimento, Francisco afirmou que naquele dia levou a esposa e a filha a um posto de saúde em Itatiba. A esposa, Jociele, confirmou parte desse relato, mas afirmou que Francisco permaneceu dentro do carro porque estava descalço. Francisco, por sua vez, disse que estava usando botas, que posteriormente foram entregues à polícia.
Francisco também confirmou que esteve na área no dia do desaparecimento e que foi questionado por pessoas que ajudavam nas buscas sobre Victoria. Ele afirmou que não tinha visto a adolescente.
Outro elemento investigado foi o boné de Victoria. O objeto foi encontrado em uma estrada pela qual Francisco comprovadamente passou de carro naquele dia.
A investigação particular também analisou os cães farejadores utilizados nas buscas. Segundo o relatório, os cães demonstraram interesse insistente pelo carro de Francisco e pelas proximidades da casa onde ele morava. A família de Victoria considerou esse resultado relevante para reconstruir os possíveis últimos momentos de Victoria.
Outro ponto importante é que Francisco vendeu posteriormente o veículo que utilizou no dia do desaparecimento.
A investigação particular também menciona Mauro, um tratorista que era amigo de Francisco e apresentou informações falsas para criar uma versão diferente dos acontecimentos.
Francisco também foi acusado de uma tentativa de violência íntima contra uma jovem que era muito parecida fisicamente com Victoria. Francisco negou ter cometido esse crime e se mudou para a cidade após prestar depoimento sobre esse caso.
Essas informações foram reunidas pela família ao longo dos anos e passaram a fazer parte da linha investigativa que apontava Francisco como uma pessoa que deveria ser novamente investigada. O pai de Victoria sustentou que diversos elementos não receberam a atenção que ele considerava necessária durante a investigação original.
Mas a investigação oficial não chegou naquele momento a uma conclusão que responsabilizasse Francisco pela perda da vida de Victoria. O caso acabou sendo arquivado por falta de elementos suficientes para identificar um autor.
Mas a família continuou insistindo. Em junho de 2025, o DHPP retomou a investigação e o inquérito voltou a avançar. E no começo desse mês, agora em setembro de 2026, Francisco foi preso temporariamente em Itatiba.
A prisão aconteceu em uma investigação envolvendo duas crianças. Segundo as informações divulgadas pela Polícia Civil, duas irmãs relataram que tinham sido vítimas de crimes íntimos quando tinham 7 e 8 anos, mas que nunca tinham contado por medo de Francisco.
Então, a prisão não aconteceu por uma condenação pelo caso de Victoria, mas o novo caso fez os investigadores voltarem a analisar a possível relação de Francisco com a adolescente.
E tem uma coincidência chocante entre os dois casos: os locais relacionados aos crimes íntimos contra as meninas ficavam próximos da região onde Victoria foi encontrada.
A nova investigação também apurou que testemunhas relataram que viram um carro da mesma cor do carro do Francisco nas proximidades daquela área no período da morte de Victoria.
Durante onze anos, João Carlos, o pai de Victoria, lutou para garantir que a morte da filha não fosse esquecida e que o que aconteceu naquela fazenda fosse investigado. Ele reuniu documentos, procurou especialistas e insistiu em entender o que aconteceu com a filha naquela tarde de setembro de 2015. E enquanto a família continuar buscando respostas, a história de Victoria também continua sendo lembrada.
Fontes:
- Relatório completo da família de Victoria Natalini (PDF)
https://natalini.com.br/wp-content/uploads/2023/09/Caso-Victoria-Natalini-Relatorio-Completo-SIGILOSO-14set20-atualizado-08fev2023.pdf
- https://bbc.com.im/portuguese/articles/c72lely62l8o
- https://bbclatestnews.pages.dev/portuguese/articles/c93j115z528o
- https://www.opovo.com.br/agencia/bbc/2026/02/10/caso-victoria-natalini-a-morte-de-adolescente-em-excursao-escolar-que-passou-anos-sem-reposta-e-levou-pai-a-cruzada-por-justica.html
- https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/a-investigacao-de-pai-que-levou-a-reviravolta-em-caso-de-morte-de-menina-em-excursao-escolar-espero-finalmente-ter-paz.shtml
- https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2026/09/18/caso-victoria-natalini-homem-e-preso-11-anos-apos-o-crime-em-itatiba.ghtm
- https://natalini.com.br/comissao-de-direitos-humanos-discutiu-o-caso-de-assassinato-de-victoria-natalini/
- Doc Investigação sobre o caso: https://www.youtube.com/watch?v=sU1wSs1fc1s


