Caso Yvonne Woods

Yvonne Woods, chamada de Missy, trabalhou no Colorado Bureau of Investigation, o CBI, de 1994 até 2023. Missy analisou evidências de DNA utilizadas em investigações de mais de 10 mil casos de crimes contra a vida, agressões íntimas e roubos. O problema só veio à tona em setembro de 2023, quando um estagiário do CBI analisava dados de exames antigos relacionados a casos de agressão íntima e encontrou uma inconsistência em uma amostra processada por Woods em 2018. Havia um valor indicando a presença de DNA masculino, mas o dado correspondente da quantidade desse DNA não aparecia no registro. A equipe verificou possíveis erros que poderiam acontecer naquele exame, mas não encontrou resposta para aquela inconsistência. Então, o CBI começou a revisar outros arquivos produzidos pela Missy.


Na revisão foram encontradas alterações e exclusões de dados em seus registros laboratoriais. Entre os problemas identificados estavam mudanças nos valores de quantificação do DNA, repetição de lotes de testes sem documentação adequada e exclusão de informações relacionadas ao controle de qualidade. A investigação também encontrou situações em que dados que indicavam a presença de DNA masculino em casos de agressão íntima foram apagados e os relatórios enviados às autoridades informaram que nenhum DNA masculino havia sido encontrado. Em determinados casos, os registros também indicaram problemas de contaminação que exigiam novas análises, o que fazia com que as amostras não tivessem valor jurídico.


Em outubro de 2023, Missy foi colocada em licença administrativa e, no mês seguinte, deixou o CBI após 29 anos de trabalho. A agência pediu que a South Dakota Division of Criminal Investigation conduzisse uma investigação criminal independente sobre Missy. Os investigadores analisaram os registros laboratoriais e os casos nos quais Woods trabalhou.


A investigação criminal encontrou 53 casos nos quais seus relatórios apresentaram informações falsas ou enganosas. Em muitos dos casos investigados, a analista informou que não havia DNA quando os exames haviam identificado DNA. Entre os casos, 32 deles envolviam mulheres e crianças que relataram agressões íntimas. Em 41 dos casos, nenhuma acusação havia sido apresentada contra um suspeito. A manipulação dos dados impediu que algumas evidências avançassem para novas etapas de análise, comparação e investigação.


Quando questionada sobre o motivo de alterar os dados, Missy explicou aos investigadores que fazia isso para conseguir concluir os casos mais rapidamente. Ela também reconheceu que a presença de qualquer quantidade de DNA masculino poderia levar as autoridades a solicitar novas análises do laboratório. Ao eliminar esses valores, ela evitava que determinados casos avançassem.


As consequências começaram a aparecer nos tribunais. Um dos casos mais conhecidos envolveu Michael Clark, condenado por tirar a vida de Marty Grisham. A condenação foi anulada em 2025 depois que a defesa apresentou questões relacionadas ao trabalho de Missy. Clark acabou sendo solto da prisão. Outros processos também passaram por revisão, e houve casos de homicídio nos quais os acusados receberam penas menores em acordos porque os promotores consideraram a participação de Missy um problema para a apresentação das provas em julgamento.


O problema também chegou a casos que ainda estavam sendo investigados. Em Denver, o laboratório criminal da cidade deixou de confiar nos resultados produzidos por Missy e, em 2025, solicitou ao CBI a devolução de centenas de kits de agressão íntima para análise. O pedido ultrapassou 1.300 casos.


Depois dos novos exames, a polícia de Denver reabriu 13 casos de agressão íntima que estavam encerrados. Os novos testes produziram 11 perfis genéticos que foram inseridos no CODIS, o sistema utilizado pelas autoridades americanas para comparar perfis de DNA e identificar possíveis conexões entre investigações. Até setembro de 2026, seis desses perfis deram match, ou seja, os criminosos poderiam ter sido identificados muito antes.


Em uma investigação interna do CBI em 2014, colegas questionaram os métodos utilizados por Missy e ela chegou a ser afastada de atividades relacionadas a exames de DNA em 2018, mas continuou trabalhando no órgão até 2023.


Em janeiro de 2025, ela foi formalmente acusada de 102 crimes relacionados a 58 episódios de conduta entre 2008 e 2023. As acusações incluíam um crime de invasão cibernética, um de perjúrio, 48 acusações de tentativa de influenciar um funcionário público e 52 acusações de falsificação. 


Inicialmente, ela se declarou inocente, mas em junho de 2026, se declarou culpada e um acordo eliminou as demais acusações e estabeleceu uma pena de prisão.


Em 8 de setembro de 2026, aos 66 anos, Yvonne “Missy” Woods foi condenada a dez anos de prisão pelos crimes. Durante a audiência, ela pediu desculpas e reconheceu que recebeu a responsabilidade de trabalhar com evidências que podiam afetar profundamente vítimas, réus, famílias e tribunais.


O CBI estimou que os custos relacionados à revisão dos casos e às consequências da conduta de Woods ultrapassaram 11 milhões de dólares até o final de 2024. E o trabalho de revisão continua. 


Quando pensamos nas mulheres e crianças que denunciaram uma agressão íntima e entregaram as evidências para que a polícia encontrasse quem fez aquilo com elas, o caso de Missy ganha uma dimensão muito cruel. Enquanto essas vítimas esperavam que o DNA ajudasse a identificar seus agressores, ela apagou ou alterou informações que poderiam ajudar nas investigações. Para quem já tinha passado pela violência, isso significou perder a possibilidade de descobrir quem era o responsável e de ver a pessoa responder pelo que fez. Os homens que poderiam estar por trás desses crimes continuaram livres. Para quem denunciou uma violência íntima, saber que uma das pessoas responsáveis por investigar o crime manipulou evidências acrescentou uma camada de injustiça a uma das piores experiências que alguém pode viver.



Fontes:


https://firstda.co/news-update/former-cbi-lab-analyst-missy-woods-sentenced-to-ten-years-in-prison/

https://firstda.co/news-update/former-cbi-lab-analyst-missy-woods-pleads-guilty/

https://www.cbsnews.com/colorado/news/yvonne-missy-woods-colorado-dna-analyst-sentence-cbi-evidence/

https://apnews.com/article/02bf850c9a6b745e3fdb239d6c6da699

https://www.denvergazette.com/2026/09/11/denver-police-reopen-13-sex-assault-cases-after-retesting-missy-woods-cbi-work/

https://people.com/crime-analyst-gets-10-years-after-manipulating-dna-data-throwing-hundreds-of-cases-into-question-12114774

https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/09/08/ex-analista-pega-10-anos-por-manipular-dados-de-dna-nos-eua.ghtm