Robert Spangler

Na manhã de 30 de dezembro de 1978, os corpos de Nancy Spangler, de 45 anos, e de seus dois filhos adolescentes foram encontrados na casa da família, em Littleton, Colorado. Os três foram vítimas de disparos de arma de fogo. As crianças foram encontradas em seus quartos, enquanto Nancy estava caída em uma cadeira no porão, com um ferimento visível na testa. Uma carta de suicídio datilografada foi encontrada nas proximidades e estava assinada apenas com a letra N, a inicial de Nancy. 

Robert Spangler, marido de Nancy, admitiu à polícia que ele e a esposa tinham problemas conjugais, que planejava deixá-la e que mantinha um caso com outra mulher. Ele deixou implícito que Nancy estava tão abalada com o fracasso do casamento que tirou a própria vida e a dos filhos. Mas pessoas próximas de Nancy não conseguiam acreditar que ela seria capaz de matar os filhos que tanto amava. Elas se perguntaram se Robert poderia ter matado toda a família e preparado a cena para que parecesse um assassinato seguido de suicídio. Essa possibilidade pareceu ainda mais provável depois que sua segunda e sua terceira esposas também morreram repentinamente enquanto Robert estava ao lado delas.


Robert Marilyn Spangler, conhecido como Bob, nasceu em Des Moines, Iowa, em janeiro de 1933. Ele foi adotado ainda muito pequeno por Merlin e Ione Spangler, de Ames, também em Iowa, e a família não tinha informações sobre seus pais biológicos. Mas Bob teve sorte, seus pais adotivos tinham boas condições financeiras e também eram muito envolvidos emocionalmente na vida do filho, mas pessoas ligadas a ele dizem que o fato de ter sido adotado sempre o incomodou.


Robert Spangler



A cidade de Ames, no Iowa, onde Bob foi viver com os pais adotivos, fica praticamente no centro do estado e é cercada por áreas agrícolas, mas a cidade se diferenciava das fazendas ao redor por ser uma cidade universitária, tendo a Iowa State University como seu centro cultural e econômico. De uma forma ou de outra, quase todo mundo na cidade tem alguma ligação com a universidade, e também era assim na família de Bob, porque seu pai, Merlin, era um professor muito respeitado da Iowa State na área de engenharia de solos.


Durante grande parte dos primeiros anos de sua vida, Bob viveu à sombra do pai. Bob admirava os feitos de Merlin e algumas pessoas dizem que ele parecia até sentir uma certa inveja da grandeza que via no pai. Merlin também nasceu em Des Moines, Iowa, e tinha a ética de trabalho típica do Meio-Oeste americano no início do século XX. De origem humilde, ele estudou muito e conquistou seu diploma em engenharia civil pela Iowa State University em 1919. Depois disso, serviu por um ano e meio no Exército dos Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial. Enquanto estava no Exército, ocupou o posto de tenente e, durante a guerra, casou-se com sua namorada, Yone Amsbury.

Depois da primeira guerra, o Merlin trabalhou como projetista de pontes na Comissão de Rodovias do Estado de Iowa, mas o estudo era sua paixão e ele conseguiu seu mestrado em Ciências em 1928. Não satisfeito em trabalhar apenas na área da educação, também assumiu um importante cargo como pesquisador de pressão do solo sobre estruturas subterrâneas.


Já deu pra entender que o pai do Bob era muito respeitado e querido pela comunidade universitária, mas é compreensível que toda a fama e talento do pai podiam parecer intimidadores pro Bob, que tinha essa referência de sucesso.


Robert e Nancy na adolescência



Durante a Segunda Guerra Mundial, Merlin se tornou oficial da Marinha e foi colocado nas  unidades de construção. Ele fez um trabalho tão bom que terminou a guerra com o posto de tenente-comandante. Depois da guerra, continuou sua carreira de ensino e pesquisa na Iowa State e  entrou para um grupo raro de pessoas que tiveram uma teoria científica batizada com seu próprio nome. Nesse caso, foi a Teoria de Marston-Spangler. 


O Merlin e a Yone também adotaram outro garoto, Wayne, que não era irmão biológico do Bob, mas não temos muitas notícias sobre ele, apenas que não apresentou os mesmos problemas que Bob enfrentou nos primeiros anos de vida. Bob passou por alguns períodos difíceis durante os anos escolares. Um colega de escola disse que Bob se envolvia em muitas brigas durante o ensino fundamental. Certa vez, segundo esse colega, Bob brigou com outro garoto e ele foi tão violento, que tiveram que tirar ele de cima do menino, ou ele continuaria batendo nele até o fim, se é que vocês me entendem. O amigo disse que o Bob parecia sentir prazer em machucar as pessoas.


Anos depois, esse mesmo amigo foi questionado pelo FBI sobre se o Bob gostava de torturar animais ou provocar incêndios. A gente sabe que esses são comportamentos comuns de se encontrar em serial killers durante a juventude. Embora o amigo não se lembrasse de algo assim, se lembrava da raiva de Bob quando ele entrava em uma briga. Segundo ele, quando Bob começava, não parava mais.


Algo ainda mais sério aconteceu quando Bob era criança. Outro garoto da escola, de quem Bob não gostava, morreu misteriosamente afogado em uma estação de tratamento de esgoto perto de Ames. Bob chegou a ser considerado suspeito a ponto de ser levado ao departamento de polícia para interrogatório, mas o caso acabou arquivado. Mas todo mundo que convivia com Bob sabia que ele tinha um temperamento muito violento.


Mas Bob também era inteligente, atlético e tinha muita confiança em si mesmo. Na época do ensino médio, conseguiu direcionar suas agressões para os esportes e outras atividades. Entrou para a banda, o clube de jornalismo, o clube de operadores de cinema, o time de tênis, o time de atletismo e o time de basquete.


Embora Bob fosse um daqueles atletas naturalmente talentosos que é bom em todos os esportes, ele se destacou mesmo no futebol americano. O time de futebol americano da Ames High School entrou para os livros de recordes em seu último ano. Para Bob, aquela temporada vitoriosa foi um dos grandes momentos de sua vida. Torcendo por ele das arquibancadas durante toda a temporada estava sua linda namorada Nancy Stallman.


Nancy nasceu em Ames e seu pai trabalhava para a Standard Oil Company e, posteriormente, comprou seu próprio posto de gasolina. Quando Nancy era pequena, seus pais se divorciaram e o pai se casou novamente com uma mulher chamada Joe Fitch, e Nancy ganhou um meio-irmão, David, e uma meia-irmã, Kathy.


Ao que tudo indica, ela se dava bem com os dois, porque, mais tarde, ambos só tiveram coisas boas para dizer sobre ela. Mas Nancy se dava bem com praticamente todo mundo. Ela cresceu em uma casa que não tinha a mesma condição financeira dos Spangler, mas sua família vivia com conforto suficiente.


Nancy também era muito ativa e popular no ensino médio. Participava da associação atlética de garotas, do clube de fotografia, do clube de operadores de cinema e das equipes responsáveis pelo anuário e pelo jornal da escola. Às vezes, ela também era eleita como secretária da sala de aula. Mas as atividades favoritas de Nancy eram aquelas que a aproximavam ela do Bob, especialmente o clube de cinema e o de jornalismo.


Apesar do interesse de Bob pelos esportes, ele era realmente fascinado pelo jornalismo e tinha talento para escrever. Depois do ensino médio, planejava fazer jornalismo como sua principal área de estudo na faculdade. Na universidade, Bob se tornou editor de reportagens especiais do jornal da escola, uma posição que permitia a ele destacar suas próprias conquistas no campo de futebol. E ele sempre gostou de se autopromover.


Nessa época, o Bob era um adolescente inteligente, extrovertido, engraçado e cheio de energia. Suas ocasionais explosões de raiva eram atribuídas ao mau humor típico de um adolescente. Nancy estava apaixonada demais por Bob para enxergar suas falhas de caráter, mas sua prima Martha diria anos depois que a única pessoa que Bob amava era ele mesmo.


Nancy também estudou na Iowa State depois do ensino médio. Ela trabalhou na equipe de jornalismo e na equipe responsável pelo anuário da universidade. Ela e Bob se casaram depois da faculdade, mas o período de lua de mel durou pouco porque logo Bob entrou para o Exército como segundo-tenente.


Durante o treinamento básico, Bob foi tão habilidoso com o rifle que conquistou a classificação de atirador de elite. No exército, ele participou do Signal Corps, a divisão de cinema e televisão, e recebeu treinamento sobre o uso de sistemas de comunicação do Exército.


A posição militar do Bob no Signal Corps era bem glamurosa. Depois de concluir o treinamento básico, ele se tornou oficial responsável por câmeras cinematográficas em uma base do Exército perto de Nova York, onde ele e Nancy foram viver.


O período de Bob no Exército pareceu transcorrer sem problemas e não houve nenhum registro negativo em sua ficha. Depois de receber baixa, ele trabalhou durante algum tempo com televisão em Nova York, mas, quando surgiu uma oferta de emprego melhor em Minneapolis, Minnesota, ele aceitou.


O primeiro filho do Bob e da Nancy, David, nasceu em Minneapolis, mas logo depois eles voltaram para a região de Nova York, por causa de outro emprego na área de radiodifusão. Susan, a caçula do casal, nasceu nessa época.


Uma coisa observada por Martha, prima de Nancy, foi que, para onde quer que Bob quisesse ir, era para lá que a família ia. Segundo ela, as aspirações e a carreira de Nancy sempre ficavam em segundo plano em relação às de Bob. Ela colocou suas próprias ambições profissionais de lado para se dedicar aos filhos e ao marido, o que era esperado pela sociedade.


Depois de viajar a Denver a trabalho, Bob se apaixonou pelo Colorado. Ele levou a família para Littleton, e conseguiu um novo emprego em relações públicas na American Water Works Association que ficava na região de Denver.


Vendo de fora a vida da família em Littleton era considerada ideal. Bob tinha uma boa esposa, dois filhos saudáveis e um estilo de vida agradável nos subúrbios. Mas ele parecia não estar satisfeito. E em 1976, começou um caso extraconjugal com uma jovem secretária do seu escritório chamada Sharon Cooper.


Os colegas de trabalho de Bob se lembrariam depois que Sharon era atraente e extrovertida e que os dois não fizeram muita questão de esconder o caso, todo mundo sabia.


Sharon foi descrita como uma mulher muito extrovertida, tinha muito interesse nas ideias místicas do New Age e falava abertamente com todos no escritório sobre sua cirurgia de aumento dos seios.

Mas não demorou muito para Nancy descobrir o caso e Bob acabou saindo de casa para morar com Sharon em um apartamento em Denver.


David e Susan, os filhos de Nancy e Bob, já eram adolescentes nessa época e anos depois, Bob contou a um amigo que, durante aquele período em que se separou, quase não manteve contato com os filhos. A Sharon não queria crianças dentro de casa, especialmente adolescentes. O Bob achava que a Nancy tinha perdido o controle sobre os filhos. Ele não aprovava os amigos de David e de Susan e era nítido que mal conhecia os próprios filhos.


Mas a Sharon também tinha um temperamento muito mais explosivo que a Nancy. Pessoas próximas disseram que ela apresentava mudanças de humor bastante drásticas, o que somado ao temperamento explosivo e narcisista de Bob, fazia com que o casal muitos altos e baixos.


A vida de Bob estava completamente desorganizada e ele decidiu voltar a morar com a família em outubro de 1978. Logo depois do Natal daquele ano, Nancy enviou ao seu pai e à sua madrasta uma carta, onde dizia que ela e Bob estavam felizes juntos depois dos nove meses de separação. Ela escreveu sobre as viagens de motocicleta que os dois fizeram e sobre os planos para caminhadas nas montanhas. Também contou que havia conquistado um diploma de nível superior em educação em uma das universidades próximas e que estava muito animada com a possibilidade de se tornar uma profissional de relações públicas em tempo integral, agora que os filhos estavam quase adultos. A carta não parecia ter sido escrita por alguém que estava pensando em tirar a própria vida e a dos filhos.


Na manhã de 30 de dezembro de 1978, Bob atirou em Nancy, Susan e David com completo desapego emocional. Anos depois, ele diria que ara ele, aquilo era apenas uma tarefa desagradável que precisava cumprir, não era nada fora do normal.


Depois de 23 anos de casamento, Bob se sentia preso a uma vida entediante de classe média. Seu filho de 17 anos, David, tinha cabelos compridos e tocava em uma banda de rock barulhenta que costumava ensaiar no porão da casa. Sua filha de 15 anos, Susan, tinha vários namorados, e embora Nancy ainda fosse muito carinhosa com ele, a vida parecia muito monótona para Bob. Ele achava que faltava emoção.


A reconciliação parecia estar funcionando para Nancy, mas não estava funcionando para Bob e nem para os filhos, que não respeitavam um pai que tinha largado a família por quase um ano para viver com outra mulher. E o Bob praticamente ignorava os filhos. Ele ainda queria uma vida com Sharon e não queria mais ter Nancy e os filhos no caminho.


Nos dias que se seguiram ao Natal, Bob decidiu que eliminaria toda a família e começaria uma nova vida com Sharon. Depois que tomou essa decisão, começou a colocar em prática um planejamento cuidadoso.


A primeira tarefa era criar a ideia de que Nancy era desequilibrada, E não tinha melhor forma de fazer isso do que provocar uma discussão com a esposa na frente de alguns amigos de Susan e David. O objetivo era fazer Nancy parecer uma mulher capaz de fazer qualquer coisa.

Por volta das 20h15 do dia 28 de dezembro de 1978, duas amigas de Susan chegaram à casa dos Spangler. David abriu a porta e as levou até o quarto de Susan, onde ela e seu namorado, Timothy, estavam ouvindo música.


Todos estavam planejando uma festa de Ano-Novo, que também seria uma festa de aniversário para o Timothy. Susan perguntou pra mãe se eles poderiam fazer a festa em casa, e Nancy concordou. Bob pensou que aquela seria a desculpa perfeita para uma discussão com a esposa, usando a acusação de que ela era muito permissiva.


Por volta das 10h daquela noite, quando as amigas de Susan estavam se preparando para ir embora, elas ouviram Bob discutindo com David e Nancy na cozinha da família. Bob gritava e xingava os dois, principalmente David, enquanto Nancy parecia estar à beira das lágrimas. Constrangida, Susan levou rapidamente as duas amigas até a porta, despediu-se delas e voltou para dentro da casa. Sentindo que sua missão estava cumprida, Bob encerrou a discussão abruptamente e foi dormir.


Susan Spangler



No dia seguinte, 29 de dezembro de 1978, entre 9h30 e 10h da manhã, Tim, namorado de Susan, voltou à casa da família. Por volta das 15h, Tim percebeu que Bob tinha voltado mais cedo do trabalho e chegou a ouvir o Bob pedir desculpas ao David pela discussão da noite anterior. Tim foi para casa jantar entre 17h30 e 18h, mas voltou à casa dos Spangler por volta das 19h30 e subiu para o quarto de Susan.


Segundo o relato de Tim, ele e Susan tomaram LSD e ficaram ouvindo música. Tim permaneceu com Susan até aproximadamente 1h30 da manhã do dia 30 de dezembro, quando voltou para casa.

Bob guardava um revólver calibre 38 dentro de uma caixa de sapatos no armário do quarto do casal. Embora fosse um homem alto, com cerca de 1,85 metro, ele colocou um banquinho diante do armário, como se uma pessoa mais baixa estivesse tentando alcançar a caixa de sapatos.


Depois, levou a arma para o porão e a escondeu lá. Nas primeiras horas da manhã de 30 de dezembro de 1978, Bob desceu ao porão e colocou uma carta datilografada em uma máquina de escrever que Nancy costumava usar.


A carta dizia:

"Agora que decidi fazer isso, o que posso dizer? Encontrei a arma por acaso há algum tempo e não consegui deixar de pensar nisso. Não sei por que não contei nada a você. Estou destruída. Sempre discutimos sobre quem ficará com as crianças. Eu vou. Sei que você vai se dar bem. Você sempre se deu."


Na parte inferior da carta havia uma letra "N" escrita à mão. Bob tinha enganado a Nancy para que ela escrevesse a letra ali, dizendo que ela estava assinando uma carta de Natal que ele iria datilografar.

Depois de arrumar o porão, o Bob subiu e pediu que Nancy fosse com ele lá para baixo, dizendo que tinha uma surpresa pra ela. Então ele fez com que ela se sentasse em uma cadeira ao lado da mesa da máquina de escrever e fechar os olhos. Então, ele apontou a arma para a testa da esposa de 23 anos em um ângulo de aproximadamente 40 graus, um ângulo comum em cenas de pessoas que tiram a própria vida, e puxou o gatilho. Nancy caiu sobre a cadeira, imediatamente sem vida.


Enquanto isso, Susan e David ainda dormiam no segundo andar. Bob subiu até o quarto de Susan, se aproximou o máximo que conseguiu da cama e apontou para as costas da filha, na direção do coração. Um único disparo foi suficiente para ela perder a vida quase instantaneamente.


A bala atingiu David um pouco fora do centro, próximo à linha média do esterno, o que fez com que ele acordasse. Mas Bob não quis gastar mais uma bala, então decidiu pegar um travesseiro e pressionar contra o rosto do filho. David se contorceu e se mexeu, até acabar caindo parcialmente para fora da cama.


David Spangler



Então Bob voltou ao porão e deixou a arma cair no chão, como se tivese caído da mão da Nancy. 


Eram aproximadamente 10h30 da manhã quando Tim, namorado de Susan, ligou para a casa dos Spangler para falar com ela. Como ninguém atendeu, ele decidiu ir até lá. Quando chegou, tocou a campainha, mas ninguém respondeu e ele percebeu que a porta estava trancada. Olhando de fora, percebeu que o carro da família não estava na garagem. 


Depois de bater em todas as portas e janelas, Tim entrou pela janela do porão. Como estava muito escuro, ele não viu o corpo de Nancy na cadeira. Tim então subiu até o quarto de Susan e percebeu que ela não respirava. Naquele momento ele não notou muito sangue, mesmo assim entrou em pânico e correu para o quarto de David, abriu a porta e se deparou com uma cena tão terrível que quase desmaiou. Havia sangue por toda parte. O corpo de David estava caído, parcialmente para fora da cama, com parte dele sobre o chão.


Tim chamou a emergência e ficou esperando.


Alguns minutos depois, o sargento Jean Martin, do xerife do condado de Arapahoe, chegou acompanhado de dois policiais.


Ao caminharem até o quarto dos pais, encontraram a encenação preparada por Bob: um banquinho diante do armário, como se uma pessoa de baixa estatura tivesse usado o objeto para alcançar a caixa de munição calibre .38 que ficava em uma prateleira alta.


Por volta do meio-dia, o tenente Les Murray e o investigador Marv Tucker, do Departamento do Xerife do Condado de Arapahoe, chegaram à casa dos Spangler. Segundo Tucker, Hamilton desceu ao porão e encontrou o corpo de Nancy, a arma e a suposta carta de despedida. A arma tinha três cartuchos deflagrados e três cartuchos intactos. Uma meia masculina cobria metade do cabo.


Às 16h45, Bob Spangler voltou para casa e encontrou a área isolada pela polícia. Ele sabia que aquela seria a atuação mais importante de sua vida e teve o dia inteiro para elaborar uma história. Ele disse aos investigadores que ele e Nancy tinham brigado no dia anterior e que de manhã tinha dito a ela que queria o divórcio. Segundo Bob, ele e Nancy acordaram e desceram para o andar de baixo. A discussão continuou e, por volta das 8h30, Nancy mandou Bob sair de casa.


Ele continuou com sua história. Disse que vestiu o casaco e saiu pela porta de vidro dos fundos, atravessou o quintal, pulou uma cerca e até um pequeno shopping, onde ficou andando por algum tempo. Segundo ele, ele teria ficado fora de casa por cerca de uma hora e meia. Depois ele disse que voltou, passou pelo quintal até chegar direto à garagem. Ele disse que não entrou na casa naquele momento. Entrou na garagem, pegou o carro e saiu.


Bob contou à polícia que ficou dirigindo por Denver enquanto ouvia pelo rádio uma partida de futebol e depois foi assistir ao filme "O Senhor dos Anéis", que tinha sido lançado em desenho animado, em um cinema localizado no shopping University Hills. Quando o filme terminou, ele voltou para casa e encontrou os policiais.


Mas esse álibi não convenceu a polícia logo de cara e o Bob concordou em fazer um teste para detectar resíduos de pólvora, mas o técnico responsável pelo exame era amigo dele. O nome dele era Jack Swanberg. Os dois trabalharam juntos em vários projetos do Jack seguir carreira como técnico de laboratório. Bob também era treinador do time de futebol dos filhos do Jack.


Mas o teste concluiu que ele tinha resíduos na parte de cima das mãos, compatíveis com alguém que disparou uma arma, mas também tinha resíduos na palma das mãos, o que não é compatível com alguém que disparou uma arma, mas de alguém que pegou uma arma recém disparada. 

O Jack contou aos investigadores que era amigo de Bob. Também disse que Bob não tinha parentes na região e perguntou se seria possível Bob passar aquela noite em sua casa.


Embora isso fosse muito incomum, os investigadores permitiram. No dia seguinte, 31 de dezembro, Jack Swanberg disse que Bob estava disposto a fazer um teste com polígrafo.


No momento do teste, Bob parecia animado para fazer o teste, mas estava muito agitado e chegou a hiperventilar. Por isso, o técnico do polígrafo, que não era o Jack, era um outro profissional, determinou que Bob não estava em condições de realizar o teste. Ele não quis submetê-lo ao exame naquele dia e mandou que fosse para casa.


Naquele momento, o Bob já havia contratado um advogado chamado John Burns.

Pouco depois da conclusão das autópsias de Nancy, David e Susan, Bob pediu que eles fossem cremados.


Os exames de resíduos de disparo coletados de Nancy, levantaram algumas questões. A quantidade encontrada não era suficiente para indicar a presença de resíduos de disparo. Também não foi encontrado um padrão de pólvora que pudesse indicar contato próximo do cano da arma com a pele.

Por outro lado, a quantidade de resíduo encontrada na palma direita de Bob era suficiente para indicar a presença de resíduos de disparo.


A máquina de escrever também foi examinada, e foram encontradas marcas de limpeza, como se alguém tivesse limpado a superfície para remover impressões digitais.


Com esses resultados, a polícia chamou o Bob novamente. Ele compareceu acompanhado de seu advogado e dessa vez ele mudou a primeira versão. 


Primeiro, Bob contradisse sua declaração anterior sobre ter discutido com a esposa na manhã de 30 de dezembro. Dessa vez, disse que mal havia falado com ela naquela manhã. Contou que foi até a cozinha tomar café da manhã e que Nancy mandou ele sair da casa. Então pegou o casaco e saiu pela porta dos fundos, pulando a cerca. Disse que caminhou até o shopping, ficou andando por lá e depois voltou para casa.


Quando chegou, abriu a garagem e saiu de carro, mas na segunda versão, ele disse que antes de deixar o bairro, decidiu que realmente deveria voltar e conversar com Nancy sobre a situação. Então retornou pra casa e percebeu que a porta do porão estava entreaberta e que a luz estava acesa. Ele desceu as escadas e viu Nancy sentada na cadeira, com a cabeça caída para a frente e sangue escorrendo de sua cabeça.


Ele disse que se aproximou da mesa e percebeu a arma no chão, parcialmente coberta por uma meia que estava sobre o cabo. Então, afirmou que se abaixou e pegou a arma. Disse que chegou a segurar a arma com as duas mãos mas depois deixou cair novamente no chão. Então, ele disse que sentiu que precisava sair dali. Não demonstrou preocupação com o bem-estar dos filhos nem com a possibilidade de eles encontrarem a mãe morta no porão.


Segundo Bob, ele passou o restante daquele dia dirigindo e ouvindo o jogo, almoçou no Burger King e foi assistir ao filme. Enquanto estava no cinema, começou a se preocupar por ter visto Nancy e não ter chamado ninguém. Ele não ficou até o final do filme e voltou para casa.


Ele ainda disse que tinha vergonha de ter mentido no primeiro depoimento e acrescentou que aceitava fazer um teste do polígrafo. Em 28 de fevereiro, ele fez o teste.


O exame foi feito por uma empresa particular, mas Bob disse depois que conseguiu sabotar o teste respirando e hiperventilando em todas as perguntas, até mesmo quando perguntaram seu nome e a data. Essa encenação distorceu o teste, tornando-o inconclusivo. Ele fez um novo teste no início de março e novamente hiperventilou durante todo o exame. Em um relatório o técnico disse que as ações dele pareciam de propósito.


As luvas que Bob usava em 30 de dezembro foram examinadas, e os investigadores encontraram resíduos de disparo nas palmas das duas luvas, tanto na direita quanto na esquerda.


O pai e a madrasta de Nancy ficaram devastados ao descobrir que a filha e os dois netos tinham perdido a vida. O irmão de Nancy, David Fitch, suspeitou de Bob desde o início. Nancy pesava cerca de 45kg e não fazia sentido que ela tivesse conseguido dominar o filho. O pai de Nancy disse que ela odiava armas e nunca tinha manuseado uma. Quando a mãe de Bob recebeu a notícia, sofreu um derrame grave e faleceu.


Enquanto os familiares enfrentavam o luto e o sofrimento, Bob estava livre para ficar com Sharon. Poucos dias depois das mortes da família, ela se mudou para a casa de Bob. A mesma que ele dividia com a Nancy e onde tudo aconteceu.


Bob nunca demonstrou muita emoção em relação a perda da família. Os vizinhos acharam muito estranho que Sharon já tivesse se mudado para a casa com o viúvo. Além disso, Nancy parecia ser muito amorosa com os filhos e ninguém conseguia imaginar que ela tivesse tirado a vida deles. A situação ficou ainda mais chocante alguns dias depois, quando os vizinhos viram Sharon e Bob retirando os pertences de Nancy e colocando tudo na entrada da casa. Bob chegou a fazer uma daquelas vendas de garagem. 


E apesar de alguns investigadores desconfiarem, ele não foi preso. Bob e Sharon se casaram em julho de 1979, menos de um ano depois de tudo.



Sharon Spangler


Sharon dava aulas de ioga, era muito magra, mantinha a forma e praticava exercícios todos os dias, mas também enfrentava alguns problemas de saúde mental. Um interesse que ela e Bob tinham em comum era fazer trilhas no Grand Canyon. Era o único lugar onde Sharon se sentia melhor mentalmente. Para a lua de mel, fizeram uma longa viagem de moto pela Costa Oeste. No caminho de volta, Sharon convenceu Bob a passar pelo Grand Canyon. Isso aconteceu apenas sete meses depois da morte de Nancy, David e Susan.


Eles decidiram fazer a trilha chamada de Hermit Trail, que tinha uma encosta íngreme. Na época, a trilha era difícil e mal sinalizada, com pedras soltas e partes do terreno se desfazendo. Durante aquela caminhada, um jovem de 19 anos caiu cerca de 12 metros de um penhasco na parede da trilha e quebrou os dois tornozelos. Bob pegou um espelho emprestado com Sharon e subiu até uma cabana de emergência na trilha, onde fez sinais com o espelho até o pôr do sol. Os flashes foram vistos na borda do cânion e a ajuda chegou. O Bob contava isso para todo mundo, se sentindo o verdadeiro herói. Mas no dia seguinte, Sharon teve um colapso nervoso. De repente, começou a chorar enquanto caminhava pela trilha e não conseguia parar. E o Bob ficou irritado. Sharon pediu que ele a deixasse para trás e seguisse na frente, e foi exatamente o que ele fez. Sharon terminou a caminhada sozinha, chorando durante cerca de três quilômetros, enquanto Bob não demonstrou preocupação com ela. Em vez disso, ficou irritado porque o problema emocional dela atrapalhou a caminhada.


Sem que Sharon soubesse, Bob aquela trilha tinha dado novas ideias ao Bob.


Em 1986, sete anos depois do casamento com Sharon, Bob estava cansado de trabalhar para ganhar a vida. Seu pai estava com 92 anos e, enquanto permanecesse vivo, Bob não conseguia ter acesso ao enorme patrimônio que Merlin havia acumulado.


Apesar da idade avançada, Merlin ainda não demonstrava sinais de enfraquecimento, pelo menos até receber uma visita do filho. Pouco tempo depois da chegada de Bob, Merlin sofreu uma queda grave e duas semanas depois, morreu. Nunca ficou provada qualquer relação entre a visita de Bob e a morte do pai. Mas depois da morte de Merlin, Bob recebeu uma grande herança e conseguiu se aposentar. Bob tinha 53 anos.


Sharon e Bob no Grand Canion

Em 1987, Sharon já não era mais a mulher dos sonhos de Bob. Os dois estavam se afastando, e nem mesmo as viagens ao Grand Canyon conseguiam manter o casamento.


Em 4 de dezembro de 1987, Sharon ligou para seu terapeuta, Dr. Bell. A ligação foi frenética e incoerente. Ela disse que estava com medo de Bob e que pensava em se machucar. A ligação foi tão desconcertante, que o Dr. Bell decidiu telefonar para polícia e pedir uma verificação de bem-estar. Ele disse que a Sharon estava deprimida e talvez precisasse ser internada.


Mas assim que um policial chegou à região, recebeu uma mensagem pelo rádio informando que Sharon tinha sido vista no supermercado nas proximidades, e que estava agindo de maneira muito errática. Ela estava histérica e escondida de seu marido dentro do supermercado. Ela afirmou que ele tinha ameaçado ela depois de pegar as chaves do carro impedindo que ela fosse embora. Ela correu para o depósito nos fundos da loja e ficou escondida lá. Estava tão desesperada que pediu que colocassem um saco sobre sua cabeça para que ninguém a reconhecesse.


Dois policiais conseguiram dominá-la enquanto ela lutava e gritava. Depois, ela foi levada de ambulância ao hospital para uma avaliação de saúde mental. Se a Sharon sabia o que tinha acontecido com a família de Bob anos antes, ninguém nunca ficou sabendo, mas este comportamento deixa a gente pensando.


No final de dezembro de 1987, ficou claro que o casamento de Bob e Sharon não tinha mais conserto. Bob contou ao amigo e companheiro de trilhas chamado Jim que eles se divorciariam no próximo ano e que Sharon permaneceria na casa com ele por enquanto. Disse que a situação era desconfortável, mas não era terrível. Em abril de 1988, Bob contou ao Jim que o divórcio estava sendo finalizado e que os dois estavam ansiosos para seguir com suas vidas.


Mas o Bob não ficou satisfeito com o acordo do divórcio. Ele precisava pagar a Sharon 500 dólares por mês até fevereiro de 1990 e 400 dólares até julho de 1997. Sharon abriu mão de qualquer direito sobre a casa - a mesma em que ocorreram os crimes -, mas recebeu 150 mil dólares pelo patrimônio de Bob.


Divorciado, o Bob comprou uma casa nova em Denver e começou a sair com várias mulheres. Ele também colocou um anúncio para solteiras em um jornal. O anúncio chamou a atenção de uma mulher chamada Donna Sundling, que morava na cidade de Evergreen, perto de Denver. E os dois marcaram um encontro.


Naquela época, Donna morava em um bairro sofisticado nas montanhas. Ela estava divorciada desde 1974, mas agora em 1989 ela queria encontrar um companheiro. A Donna era uma mulher pequena, bonita e tinha aproximadamente a mesma idade de Bob, perto dos 56 anos. Donna era mãe de cinco filhos adultos e trabalhava como contadora.


O primeiro encontro entre Bob e Donna correu muito bem. Ele contou a ela a versão oficial do que aconteceu com sua família: a esposa tirou as vidas dos filhos e depois se desviveu. E então Bob planejou apresentar o Grand Canyon para ela no outono.


Mas a primeira viagem de Bob ao Grand Canyon com Donna não saiu como planejado. Donna machucou o joelho uma semana antes, então já começou a viagem com uma limitação, principalmente porque ela tinha medo de fazer trilhas no Grand Canyon. Apesar de ser uma atleta, ela tinha tendência a sofrer episódios de tontura e tinha muito medo de altura. Mas Donna escondeu isso de Bob porque sabia o quanto ele amava aquele lugar.


Depois de um namoro curto, os dois se casaram em agosto de 1990. Eles decidiram manter a casa dela, vender a casa dele e viajar em um motorhome. Em setembro de 1991, Bob vendeu a casa deles em Evergreen e comprou uma nova propriedade em Durango. Bob tentou fazer com que Donna transferisse para ele a parte dela na nova casa, mas no fim ficou no nome dos dois. Mas pouco depois, Donna fez um testamento estabelecendo que, se morresse antes de Bob, ele receberia a parte dela na casa de Durango.


Bob então decidiu se tornar locutor de rádio na região de Durango. Ele passou a trabalhar regularmente de manhã, de segunda a sexta-feira. Donna acabou gostando muito de Durango e das pessoas com quem trabalhava. Mas, por causa do trabalho dela e do horário de Bob na rádio, o casamento começou a sofrer pressão. Em pouco tempo, os dois já levavam vidas separadas.

A tensão no casamento levou Donna a procurar aconselhamento. Ela dizia que estava deprimida e  que se sentia muito sozinha, porque Bob era muito inflexível.


Donna também sentia ciúme de uma mulher que era amiga do casal. Mas o que mais fazia com que ela se sentisse excluída era seu medo do Grand Canyon, que era o lugar preferido de Bob.

Mais tarde, Bob disse que a magia tinha desaparecido do casamento e afirmou que se casar com Donna foi um erro.


Em 1992, aconteceu uma festa de Natal na casa dos dois. Para quem observava de fora, eles pareciam um casal feliz e apaixonado, mas, em determinado momento da festa, Donna comentou com uma amiga que o Grand Canyon tinha se tornado um problema no casamento. Ela confidenciou a uma amiga que tinha muito medo de precipícios, porque tinha pouco equilíbrio, e precisava tomar remédios para tontura. 


Em janeiro de 1993, uma outra coisa atormentava Bob. Ele completou 60 anos e sentia que sua energia já não era a mesma e estava aterrorizado com a ideia de envelhecer.


Na primavera, ele estava entediado com a esposa e cansado do trabalho. Ainda havia muitas coisas que queria fazer, e Donna agora parecia apenas um peso.


Em abril, ele começou a pensar em tirar a vida dela. Então, ele começou a fazer Donna se sentir culpada e acabou convencendo ela a ir mochilar no Grand Canyon com ele na semana da Páscoa. 

Donna contou para a amiga Joan McCabe que ele insistiu muito para ela ir, mas que ela não queria. Também ligou para a amiga Sandy Brooks e contou que estava com medo das trilhas. Brooks disse que, se ela estava com medo, não precisava ir. Mas Donna respondeu que era importante para Bob e que ela faria esse esforço.


Donna Spangler



Donna estava tão nervosa que antes da viagem ela ligou para cada um de seus cinco filhos. Dois de seus filhos tiveram a sensação de que Donna estava se despedindo e ficaram muito preocupados.

Mesmo assim, em 9 de abril de 1993, Bob e Donna fizeram uma trilha pelo Grand View Trail. Em determinado ponto, o Bob levou a esposa para fora da trilha e entrou em outra trilha, muito mais difícil. O caminho foi difícil para Donna, mas eles chegaram até um local seguro onde acamparam naquela noite. 


No dia seguinte, eles pegaram outra trilha difícil. Enquanto caminhavam pela trilha, encontraram um grupo de quatro pessoas. Eles ficaram surpresos quando Bob contou que ele e Donna planejavam acampar naquela noite na Horseshoe Mesa, perto do antigo poço de mineração. Eles sabiam que aquela área era proibida para acampamentos e ficaram se perguntando por que ele escolheria um lugar tão remoto para acampar.


Em determinado ponto da trilha, os quatro caminhantes se separaram de Bob e Donna e o casal teve dificuldades para chegar ao acampamento preto da mina e acabaram montando a barraca na entrada. Bob sabia que aquele local era proibido para acampamentos. Portanto, também sabia que não teria ninguém por perto para testemunhar o que aconteceria.


Na manhã de 11 de abril de 1993, Domingo de Páscoa, Bob acordou cedo e decidiu que Donna também precisava partir. Bob aprendeu com o divórcio de Sharon que uma separação podia ser muito cara. Bob e Donna deixaram o acampamento por volta das 8h30 da manhã. Eles subiram por duas curvas íngremes acima da mina e chegaram a um paredão de apenas 9 metros de altura, mas logo abaixo dele havia uma fenda íngreme que descia por mais de 30 metros. Qualquer pessoa que caísse do paredão e entrasse na fenda teria pouca ou nenhuma chance de sobreviver.


Bob agiu rápido. Quando pararam para tomar fôlego, enquanto Donna permanecia na beira do precipício, respirando com dificuldade e olhando para ele, Bob avançou e a empurrou do penhasco. 

O impulso de Bob quase fez com que ele caísse junto com ela. Ele escorregou e chegou a poucos centímetros de despencar pela encosta também. Mas depois que passou o susto, ele precisava ter certeza de que Donna estava morta. Bob encontrou uma rota alternativa até o ponto onde o corpo de Donna estava. O caminho era íngreme e perigoso, mas ele conseguiu chegar até ela. Quando se aproximou, descobriu que Donna tinha vários hematomas e contusões pelo corpo, além de diversos ferimentos na cabeça. Ela estava sem vida.


Por algum motivo, Bob decidiu lavar o rosto dela, cobrir com uma bandana vermelha e colocou uma lona azul sobre o corpo.


Depois, ele subiu e começou a montar a história que contaria aos guardas do parque quando chegasse ao posto de apoio na Margem Sul. Ele encontrou os quatro turistas do dia anterior. Ele passou correndo por eles e depois parou, ficando na beira da trilha, recuperando o fôlego e chorando. Um deles, Kevin, disse a Bob que podia acompanhá-lo até o topo da trilha, e os dois seguiram juntos. Durante o caminho, Bob não falou muito sobre o acidente de Donna, mas comentou com Kevin que não sabia por que tinha corrido pela trilha, já que Donna já estava morta.


E quando chegaram ao topo, Bob fez um comentário ainda mais estranho: convidou o Kevin para fazer uma trilha com ele em novembro.


Por volta das 11h30 daquela manhã, Bob ficou esperando pacientemente na fila do posto de apoio para ser atendido. Quando chegou sua vez, ele disse com voz calma para a guarda florestal Dolly McHenry, que sua esposa tinha “caído para a morte” em uma trilha. 


Dolly ficou surpresa com a maneira tranquila como aquele homem falou sobre a morte da esposa e pensou que ele estava em estado de choque. Bob não demonstrava nenhuma emoção. Ele continuou contando que ele e a esposa tinham parado para tirar uma fotografia na trilha e que, enquanto ela posava para a foto, caiu. Ele afirmou que correu até o corpo dela e a encontrou sem vida. Disse também que lavou o rosto dela e cobriu o corpo com uma lona.


Às 11h45, o delegado Brett Ryan chegou ao posto de apoio e começou a entrevistar Bob junto com o guarda florestal Jeff Krack. Bob disse que Donna não era uma grande praticante de trilhas e que, se naquela manhã ela estivesse se sentindo instável e um pouco tonta, poderia ter perdido o equilíbrio. Depois, ele repetiu o que tinha ensaiado sobre a fotografia.


Por volta das 12h30, o legista, Dr. Ritland, autorizou a retirada do corpo do local. Mas, naquele momento, os ventos estavam muito fortes e era perigoso levar um helicóptero até o interior do cânion. Os guardas florestais precisaram descer a pé e isolar o local. Eles levaram mais de quatro horas para chegar ao corpo de Donna.


Quando chegaram, encontraram o corpo sob uma lona, encostado em uma árvore. Ao levantar a lona, viram que o rosto de Donna estava coberto por uma bandana vermelha, exatamente como Bob tinha dito. Dois guardas precisaram passar toda a noite junto ao corpo de Donna. Às 7h da manhã de 12 de abril, um helicóptero voou até o local. Por volta das 10h da manhã, o corpo de Donna foi içado por um cabo e levado até um heliponto.


O médico legista registrou a morte como acidental e a polícia decidiu que não havia indícios de crime. E Bob saiu livre.


Depois da morte de Donna, ele não perdeu tempo e providenciou a cremação dos restos mortais dela. A cremação aconteceu antes que qualquer um dos cinco filhos de Donna chegasse e pudesse participar da cerimônia. 


Na cerimônia em memória dela, Bob fez o discurso, mas não chorou. 


A morte de Donna foi considerada apenas mais uma tragédia na vida já trágica de Bob Spangler.


Curiosamente, em julho de 1994, Bob deixou Sharon, sua segunda esposa, voltar para sua casa. Ela estava passando por problemas financeiros e passou a morar ali como inquilina dele.


Não está claro por que Bob fez isso. Mas se Sharon não estivesse mais por perto, ele não precisaria pagar os 500 dólares de pensão. Além disso, receberia 20 mil dólares previstos no acordo de divórcio caso ela morresse antes dele.


Sharon se desviveu cinco meses depois de se mudar para a casa de Bob, tomando um coquetel de comprimidos e álcool.  Para as autoridades, Bob disse que levou Sharon ao hospital assim que percebeu o que tinha acontecido.


Mas para o amigo Jim, ele disse que sabia que Sharon estava em casa porque o carro dela estava na entrada. Ao entrar na casa, percebeu que a porta do quarto dela estava fechada. Mais tarde, viu um bilhete preso do lado de fora da porta do quarto. Segundo Bob, o bilhete dizia: “Eu fiz isso desta vez.” Depois de ler o bilhete, Bob disse que entrou no quarto. A porta estava destrancada e Sharon estava deitada na cama, acordada, mas aparentemente desorientada. Ele disse que os dois tiveram algum tipo de conversa no quarto. Segundo ele, Sharon tomava um medicamento potente que tinha duas advertências específicas: não deveria ser ingerido junto com nenhum tipo de álcool ou qualquer produto derivado de leite. Bob disse que havia uma garrafa vazia de álcool sobre a cômoda de Sharon, junto com os restos de um pedaço de queijo. Também afirmou que, durante a conversa, Sharon contou claramente o que havia tomado e que tinha pesquisado os efeitos da combinação de álcool e laticínios com o medicamento. Segundo Bob, ela sabia que a mistura e a quantidade ingerida eram suficientes para tirar sua vida.


Então Bob colocou Sharon no carro e a levou ao hospital. De acordo com Bob, Sharon estava acordada e lúcida e conversou com os médicos. Fizeram exames nela e, segundo Bob, determinaram que tinham chegado tarde demais para salvá-la.


A verdade é que os médicos realmente fizeram exames em Sharon, mas achavam que podiam sim, salvar a vida dela. O tratamento durou 12 horas e  Bob permaneceu no hospital durante todo esse tempo.


Mas a morte de Sharon levaria, finalmente, à queda de Bob. Três esposas mortas e dois filhos mortos em menos de 16 anos eram mortes demais para serem apenas uma coincidência.


Bill Burnett, amigo de Donna, que faleceu no penhasco, ficou desconfiado quando soube da morte de Sharon. Ele ligou para a Divisão de Investigação Criminal do Gabinete do Xerife do Condado de Coconino, no Arizona e contou sobre o suposto suicídio de Sharon e sobre a morte de Nancy em 1978. Isso gerou preocupação suficiente para que a polícia colocasse o detetive Bruce Cornish no caso. O Bill também telefonou para o Gabinete do Xerife do Condado de Arapahoe e eles também passaram a investigar o suposto suicidio de Sharon. No dia 4 de novembro de 1994, o investigador Paul Goodman começou a examinar o caso de Sharon.  Ele sabia que sempre existiram suspeitas sobre Bob em relação às mortes de Nancy, Susan e David e, agora, da Donna. 


O detetive Cornish se empenhou em conhecer os casos que envolviam o Bob e em 08 de agosto de 1995, nove meses depois do início de sua investigação, foi visitar o Bob em sua casa para falar sobre a morte de Donna. Bob se contradisse em diversos pontos do relato e em certo momento o detetive perguntou se ele faria um teste do polígrafo.


E a reação de Bob foi muito estranha.  Ele se levantou e começou a murmurar para si mesmo: “será que eu conto? eu devo contar pra ele?” Mas no fim Bob não aceitou fazer o teste. 


Mas Cornish não desistiu e continuou encontrando inconsistências nas histórias de Bob sobre as mortes de suas esposas e filhos. E durante 5 anos ele foi descobrindo cada vez mais coisas. Então, em 2000, uma pista investigada pelo FBI levou a uma mulher do Colorado que dizia que Bob tinha escrito uma carta a ela onde dizia que estava com câncer terminal.


A equipe de investigação que tinha sido formada ao longo do tempo, imediatamente procurou Bob Spangler. Eles precisavam de uma confissão, pois só tinham dúvidas circunstanciais e quase nenhuma evidência física. Bob concordou em conceder uma entrevista na delegacia que foi encabeçada por um agente do FBI e o detetive Cornish. A primeira entrevista durou cerca de 4 horas, mas mesmo confrontado com os casos envolvendo Nancy, David, Susan, Donna e Sharon, Bob não disse nada. Mas prometeu que entraria em contato no dia seguinte.


Ao contrário do que a equipe de investigação esperava, Bob realmente ligou para o agente do FBI no dia seguinte e marcou uma nova entrevista. Bob contou aos investigadores que, enquanto ainda era casado com Nancy, se apaixonou por Sharon e então decidiu eliminar a esposa e os dois filhos adolescentes para ficar com ela. Ele disse que o primeiro disparo não eliminou David e por isso ele teve que sufocar o filho. Durante a entrevista, ele disse aos investigadores que matar a família era mais fácil do que pedir o divórcio.


Mas Bob negou envolvimento na morte por overdose de Sharon e se recusou a falar sobre a morte de Donna no Grand Canyon porque queria evitar um processo civil movido pelos filhos dela.


Ele estava sempre pensando no dinheiro. Mas os investigadores usaram um argumento incomum e genial. Eles sabiam que Bob era vaidoso e imaginavam que ele só estava confessando agora pois queria a “glória” de ser considerado um Serial Killer, então disseram que só a morte de Nancy e as crianças não faria dele um SK. E ele mordeu a isca.  Bob explicou em detalhes como planejou o assassinato no Grand Canyon e empurrou sua terceira esposa para a morte.


Ele se declarou culpado, em um tribunal federal no Arizona, pelo assassinato em primeiro grau de sua terceira esposa e admitiu ter matado sua primeira esposa e os dois filhos. Ele recebeu uma sentença de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional e morreu de câncer enquanto estava preso em uma penitenciária federal, 10 meses após confessar.


Ele nunca confessou a morte de Sharon nem do pai dele, lembram? Que faleceu de uma queda acidental quando o filho o visitava? Mas acho que a gente pode colocar esses dois crimes na conta de Robert Spangler.


Eu acho essa uma das histórias mais frustrantes que eu conheço, por que o cara viveu mais de 20 anos depois de aniquilar a família inteira e fez mais duas vítimas até ser pressionado a confessar quando já iria morrer de qualquer forma. Ele ter falecido de causa natural menos de um ano após ser preso me parece uma grande injustiça do destino.


Fontes: