Caso Jane Doe - Cornell University
Em outubro de 2024, uma estudante de 20 anos da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, foi a uma festa na casa da fraternidade Chi Phi. Naquela noite, ela sofreu agressões íntimas de vários integrantes da fraternidade durante horas. A jovem permaneceu anônima, sendo chamada de Jane Doe, uma expressão usada nos Estados Unidos para identificar uma mulher cuja identidade não é conhecida ou divulgada publicamente. Agora, em setembro de 2026, a história voltou ao centro das atenções depois que Jane entrou com uma ação civil contra Cornell e os sete homens, e o promotor do condado de Tompkins reabriu a investigação criminal.
Na noite de 19 de outubro de 2024, Jane passou algumas horas bebendo antes de chegar à casa da fraternidade, onde foi encontrar pessoas que conhecia. Depois que entrou na casa, dois integrantes da fraternidade a pressionaram a consumir mais álcool e drogas, o que a deixou completamente incapacitada.
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| Casa da fraternidade Chi Phi em Ithaca |
Jane contou que houve uma interação íntima inicial consensual com um dos homens, mas disse que o consentimento era parcial, pois estava muito intoxicada. Mas ela considerava aquela interação diferente do que aconteceu depois. Jane contou que diferentes homens entraram no quarto onde ela estava, que outros integrantes foram chamados para participar e que os atos íntimos continuaram enquanto ela já não conseguia mais consentir ou responder. A situação se prolongou até às 5h45 da manhã do dia 20 de outubro.
A denúncia, feita por ela à polícia da universidade Cornell em novembro de 2024, identifica sete homens como participantes dos acontecimentos: Matthew Ingalls, Johnathan Newell, Winston Lee, Gillio Lopes, Diego Sarabia, Scott Norris e Scott Kretzschmar. Todos são acusados no processo civil movido por Jane agora em setembro de 2026.
Em seu depoimento à polícia da Cornell em 2024, Jane descreveu lacunas de memória e disse que chegou a ser agredida fisicamente. Mas ela reiterou: “Posso dizer com 100% de certeza que fui estuprada.”
Mas na época da denúncia o promotor Matthew Van Houten não apresentou acusações contra os sete homens. Segundo ele, o depoimento transcrito de Jane que chegou ao seu escritório não apresentava a situação da mesma forma que a ação civil de agora apresenta. Na avaliação dele naquele momento, não tinha elementos suficientes para demonstrar criminalmente que Jane estava incapacitada a ponto de não poder consentir durante toda a interação, mesmo ela dizendo literalmente que tinha 100% de certeza de ter sido agredida intimamente. O promotor alegou que essas declarações não aparecem da mesma maneira na declaração de seis páginas que chegou até ele em 2024.
Outro elemento ganhou importância em 2026: as mensagens de um grupo do Snapchat associado aos integrantes da fraternidade. Nas imagens, integrantes da fraternidade conversaram durante aquela noite sobre a presença de Jane no andar de cima. Em uma das mensagens um dos homens convidava os outros homens para participar da violência. Outras mensagens posteriores falavam sobre o ato usando termos explícitos e degradantes.
A questão sobre quando essas mensagens chegaram ao promotor também passou a ser investigada. Van Houten afirmou inicialmente que não tinha visto algumas delas quando seu escritório tomou a decisão de não apresentar acusações em 2024. Cornell, por outro lado, afirmou que a polícia da universidade havia encaminhado o material.
Apesar do promotor não apresentar denúncias na época, a Cornell suspendeu temporariamente a fraternidade e alguns dos estudantes enquanto investigava o caso, ainda em 2024. O processo interno terminou com diferentes sanções. Dois dos estudantes foram expulsos e outros receberam suspensões ou outras medidas disciplinares. A universidade posteriormente encerrou definitivamente a atuação da fraternidade Chi Phi no campus.
A publicação do processo civil provocou uma nova onda de atenção nacional. Em 28 de setembro de 2026, o promotor Van Houten anunciou que a investigação criminal seria reaberta. Ele informou que pretende apresentar as evidências a um grande júri depois da análise necessária para determinar quais acusações podem ser apresentadas.
E enquanto as autoridades finalmente decidiram investigar o que aconteceu naquela noite, uma mobilização começou a crescer nas redes sociais. Mulheres passaram a publicar vídeos dizendo “Eu sou Jane Doe” em solidariedade a Jane. A campanha se espalhou pelas redes sociais depois que surgiram tentativas de descobrir e divulgar a identidade da vítima. Muitas mulheres que participam da campanha citam as idades em que sofreram violência íntima mostrando que essa história não é apenas daquela estudante.
No Brasil, dados divulgados em 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que aproximadamente 79 mil mulheres e meninas foram vítimas de violência íntima em 2025. Os casos acontecem, em sua maioria, em locais onde as mulheres se sentem seguras, como casa de parentes, de amigos e a própria casa. Os nossos abusadores não são desconhecidos no meio da noite em uma rua deserta.
Fontes:
- https://www.cornellsun.com/article/2026/09/tccsuykuvb4z
- https://www.cbsnews.com/newyork/news/cornell-university-lawsuit-fraternity-rape-allegations/
- https://www.cbsnews.com/news/cornell-university-rape-allegations-chi-phi-fraternity-details/
- https://www.washingtonpost.com/education/2026/09/28/cornell-rape-allegations-prompt-prosecutor-reopen-criminal-investigation/
- https://abcnews.com/US/cornell-student-encounter-fraternity-house-felt-coercion-2024/story?id=136876885
- https://www.reuters.com/legal/government/what-we-know-about-cornell-university-rape-investigation-2026-10-01/
- https://www.cornellsun.com/article/2024/11/university-temporarily-suspends-several-students-amid-ongoing-chi-phi-criminal-investigation
