Caso Rubin "Hurricane" Carter
Na noite de 17 junho de 1966, Rubin “Hurricane” Carter estava no auge de sua carreira como boxeador profissional quando o carro em que estava foi parado pela polícia. O que parecia ser uma abordagem policial de rotina acabou colocando o nome de um dos principais lutadores dos Estados Unidos no centro da investigação de um crime e deu início a uma batalha judicial que se estendeu por décadas.
Rubin Carter nasceu em 6 de maio de 1937, em Clifton, Nova Jersey, e cresceu em Paterson. Sua adolescência foi marcada por conflitos com a Justiça. Aos 12 anos, foi enviado para uma instituição correcional depois de atacar um homem com uma faca. Carter fugiu da instituição e, ainda adolescente, entrou para o Exército dos Estados Unidos, onde começou a treinar boxe. Depois de deixar o Exército, voltou a ter problemas com a Justiça e cumpriu pena por crimes cometidos antes de iniciar sua carreira profissional. Quando saiu da prisão, decidiu concentrar sua vida no boxe e, em 1961, tornou-se profissional na categoria dos pesos-médios.
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| Rubin "Hurricane" Carter |
Carter rapidamente chamou atenção pelo estilo agressivo e pela velocidade com que nocauteava seus adversários, isso deu origem ao apelido “Hurricane”, ou “Furacão”. Sua carreira avançou rapidamente e ele chegou a ser um dos principais candidatos ao título mundial dos pesos-médios. Em dezembro de 1963, enfrentou Emile Griffith, vencedor do título mundial dos meio-médios, e venceu por nocaute no primeiro hound. Em dezembro de 1964, Carter finalmente disputou o título mundial dos pesos-médios contra Joey Giardello. A luta durou 15 assaltos e Giardello venceu por decisão dividida dos jurados. Mesmo asism, Carter continuou sendo um dos principais nomes da categoria.
Na madrugada de 17 de junho de 1966, por volta das 2h30 da manhã, dois homens entraram no Lafayette Bar and Grill, em Paterson. Eles carregavam armas de calibre 12 e 32 e começaram a atirar contra as pessoas que estavam dentro do estabelecimento. O bartender James Oliver perdeu a vida no local, assim como o cliente Fred Nauyoks. Hazel Tanis também foi atingida e permaneceu internada por aproximadamente quatro semanas antes de falecer em decorrência dos ferimentos. William Marins foi atingido, mas sobreviveu, e ele perdeu a visão de um dos olhos. Os sobreviventes descreveram os atiradores como homens negros.
Uma mulher chamada Patricia Graham Valentine morava em um apartamento no andar acima do bar. Depois de ouvir os disparos e o grito de uma mulher, ela olhou pela janela e viu dois homens negros entrando em um carro branco com placas de outro estado. Ela também descreveu características do veículo, incluindo as lanternas traseiras. Dentro do bar, enquanto as vítimas estavam feridas, um jovem chamado Alfred Bello foi visto retirando dinheiro da caixa registradora antes de deixar o local. Esses detalhes se tornariam importantes para a investigação porque Bello posteriormente se transformou em uma das principais testemunhas da acusação.
Poucos minutos depois dos disparos, a polícia começou a procurar um automóvel que correspondesse à descrição da Patricia. Um carro branco foi localizado e parado nas proximidades. John Artis, de 19 anos, estava dirigindo, Rubin Carter estava no banco traseiro e outro homem, John “Bucks” Royster, estava no banco da frente. Os três haviam passado parte da noite em outro bar próximo e estavam voltando para casa. Carter e Artis foram levados para a delegacia e interrogados. Uma busca no veículo encontrou um cartucho não disparado de calibre 32 e outro de calibre 12, mas nenhuma das munições correspondia às utilizadas no ataque. Nenhuma arma foi encontrada no carro.
Os policiais também levaram Carter e Artis ao hospital para que William Marins tentasse identificar os homens. Marins, que havia sobrevivido ao ataque, não identificou nenhum dos dois como um dos atiradores. A investigação, portanto, não tinha naquele momento uma identificação direta feita por uma das vítimas sobreviventes. A ligação entre Carter, Artis e o crime passou principalmente pelos depoimentos de Alfred Bello e Arthur Bradley, dois homens que tinham antecedentes criminais e que estavam nas proximidades do bar naquela madrugada.
Bello passou a afirmar que tinha visto Carter e Artis próximos ao bar imediatamente depois dos disparos, carregando armas. Bradley também identificou os dois. Esses depoimentos se tornaram fundamentais para a acusação, porque não havia uma arma do crime, impressão digital ou outra evidência física que ligasse diretamente Carter ou Artis aos crimes. A acusação construiu seu caso principalmente a partir das testemunhas e de uma teoria bastante absurda sobre o motivo do crime.
Carter e Artis foram acusados de tirar a vida de 3 pessoas e levados a julgamento em 1967. A acusação chegou a buscar a pena capital. O julgamento aconteceu em um contexto de forte tensão racial em Paterson, uma cidade marcada por conflitos entre a população negra e a polícia. Carter era uma figura conhecida na cidade, tinha antecedentes criminais e havia feito declarações públicas bastante duras sobre o tratamento dado pela polícia à população negra. A acusação utilizou parte desse histórico para construir sua narrativa sobre Carter.
Em 27 de maio de 1967, o júri considerou Rubin Carter e John Artis culpados dos três crimes. Os dois receberam sentenças de prisão perpétua. Carter continuou afirmando que não havia participado do crime e iniciou uma longa batalha judicial para tentar derrubar a condenação.
Durante os anos seguintes, começaram a surgir problemas relacionados às principais testemunhas da acusação. Em 1974, Alfred Bello e Arthur Bradley recuaram das identificações que haviam feito anteriormente e negaram ter visto Carter e Artis como os responsáveis pelos disparos.
A defesa descobriu que Bello e Bradley receberam tratamento favorável e garantias de proteção durante a investigação. Havia informações sobre promessas feitas aos dois que questionariam a credibilidade dos depoimentos. Em 1976, a Suprema Corte de Nova Jersey analisou o caso e concluiu que o Estado havia ocultado provas favoráveis à defesa e determinou que Carter e Artis tivessem um novo julgamento.
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| Rubin Carter após sair da prisão |
Enquanto a batalha judicial avançava, a história de Carter começou a chamar atenção fora dos tribunais. Em 1974, ele publicou sua autobiografia, contando sua trajetória no boxe, sua prisão e sua luta contra a condenação. O Bob Dylan leu o livro, visitou Carter na prisão e escreveu a música “Hurricane”, que ajudou a transformar o caso em uma questão conhecida internacionalmente. A música apresentou a história de Carter a milhões de pessoas e ampliou a pressão pública em torno de sua situação.
O segundo julgamento começou em outubro de 1976. A acusação voltou a apresentar Alfred Bello, que retomou sua identificação de Carter e Artis, mudando novamente sua versão. Arthur Bradley não participou nesse novo julgamento. A defesa apresentou testemunhas que colocaram Carter e Artis em outros locais no momento dos crimes e voltou a questionar as circunstâncias que envolviam Bello e sua mudança de versões.
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| Rubin Carter já idoso |
Durante esse segundo julgamento, a acusação apresentou uma nova explicação para o motivo dos assassinatos. A teoria seria de uma suposta vingança racial por outro crime ocorrido em Paterson poucas horas antes. A acusação sustentou que Carter e Artis teriam cometido o ataque como retaliação pela morte de um homem negro. A teoria foi apresentada em um julgamento que já acontecia em um ambiente marcado por forte tensão racial e utilizou declarações anteriores de Carter sobre relações raciais para tentar estabelecer esse suposto motivo.
Em dezembro de 1976, o segundo júri também considerou Carter e Artis culpados. Os dois receberam novamente sentenças de prisão perpétua. Carter voltou para a prisão e passou a contestar a condenação por meio de novos recursos. John Artis permaneceu preso até conseguir liberdade condicional em dezembro de 1981.
Um dos pontos que posteriormente ganhou grande importância foi um exame de polígrafo realizado com Alfred Bello. A defesa descobriu que havia uma gravação relacionada ao teste que poderia ser utilizada para questionar a versão apresentada por Bello, mas esse material não havia sido entregue à defesa. Em 1981, a Suprema Corte de Nova Jersey voltou a analisar o caso e reconheceu a existência de problemas relacionados à divulgação de informações sobre Bello e Bradley.
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| Bob Dylan visitanto Carter |
A batalha judicial continuou até chegar à Justiça federal. Em 1985, os advogados de Carter apresentaram um pedido de habeas corpus perante o Tribunal Distrital dos Estados Unidos em Nova Jersey. O caso foi analisado pelo juiz H. Lee Sarokin, que examinou as circunstâncias das duas condenações e as informações que haviam sido ocultadas da defesa.
Em 7 de novembro de 1985, Sarokin anulou a segunda condenação. O juiz concluiu que a acusação havia violado os direitos constitucionais de Carter e Artis ao não revelar informações importantes para a defesa. Entre elas estava o material relacionado ao exame de polígrafo de Bello. O juiz também criticou a teoria racial apresentada pela acusação e descreveu o processo como baseado em um apelo ao racismo em vez da razão e na ocultação em vez da divulgação das informações.
Carter foi libertado da prisão em novembro de 1985, depois de aproximadamente 19 anos preso. Ele tinha 48 anos. A promotoria recorreu da decisão e tentou conseguir seu retorno à prisão, mas não conseguiu. O Tribunal de Apelações do Terceiro Circuito manteve a decisão federal, especialmente a conclusão relacionada à ocultação de provas.
Em 26 de fevereiro de 1988, o juiz Ralph V. Martin assinou a ordem que retirou definitivamente as acusações contra Rubin Carter e John Artis. Naquele momento, haviam se passado quase 22 anos desde os fatos no Lafayette Bar and Grill.
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| Artis já idoso |
Depois de recuperar a liberdade, Carter mudou-se para o Canadá e passou a dedicar a vida à defesa de pessoas condenadas injustamente. Ele trabalhou como diretor da organização canadense Associação em Defesa dos Condenados Injustamente e tornou-se palestrante e ativista na área de Justiça criminal. Em 2004, fundou a Innocence International, organização dedicada a casos de pessoas que afirmavam ter sido condenadas injustamente.
A história de Carter voltou a alcançar um público ainda maior em 1999, quando o diretor Norman Jewison lançou o filme O Furacão, estrelado por Denzel Washington. A produção apresentou a prisão, a batalha judicial e a participação de pessoas que ajudaram Carter durante os anos em que ele esteve preso.
Em 2012, Carter foi diagnosticado com câncer e mesmo durante a doença, continuou atuando em defesa de outros presos. Pouco antes de falecer, participou de esforços para conseguir a revisão do caso de David McCallum, condenado em Nova York. Rubin “Hurricane” Carter morreu em 20 de abril de 2014, aos 76 anos, em sua casa em Toronto.
Fontes:
https://www.exonerationregistry.org/cases/4694
https://law.justia.com/cases/new-jersey/supreme-court/1976/69-n-j-420-0.html
https://law.justia.com/cases/federal/district-courts/FSupp/621/533/1368171/
https://law.justia.com/cases/federal/appellate-courts/F2/826/1299/321412/
https://www.nps.gov/pagr/learn/historyculture/hurricane-carter.htm
https://innocenceproject.org/in-memoriam-of-rubin-hurricane-carter/
https://www.njboxinghof.org/rubin-hurricane-carter/
https://www.latimes.com/archives/la-xpm-1985-11-08-mn-2777-story.html
https://www.latimes.com/archives/la-xpm-1988-02-27-mn-12119-story.html
https://www.upi.com/Archives/1988/01/11/High-court-wont-hear-Hurricane-Carter-case/9111568875600/

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