O Fantasma de Heilbronn

 Durante anos, investigadores da Alemanha, da Áustria e da França procuraram uma mulher que parecia estar ligada a uma sequência incomum de crimes. O mesmo DNA feminino aparecia repetidamente em locais de crime completamente diferentes, envolvendo mortes intencionais, roubos, furtos e outros delitos. O perfil genético surgiu em aproximadamente 40 ocorrências entre 1993 e 2009 e, por causa dessa repetição, os investigadores passaram a acreditar que uma única mulher estava deixando rastros de seus crimes. Ela ficou conhecida como o Fantasma de Heilbronn. 



A história começou em 1993, quando o mesmo perfil genético feminino apareceu em uma investigação na Alemanha. Nos anos seguintes, aquele perfil voltou a aparecer em diferentes lugares e em circunstâncias que pareciam não ter qualquer relação entre si. A mesma mulher parecia ter deixado vestígios em cenas de crimes muito diferentes, e isso chamou a atenção dos investigadores porque o DNA fornecia uma ligação aparentemente objetiva entre ocorrências que, à primeira vista, não tinham conexão. Entre os objetos que apresentaram o perfil estavam uma xícara, uma gaveta, uma seringa contendo substancias ilícitas, um biscoito, uma arma de brinquedo, um projétil, uma pedra usada para quebrar uma janela e objetos encontrados em veículos e imóveis.


A variedade dos crimes tornou a investigação ainda mais estranha. O mesmo perfil feminino apareceu em casos de crimes contra a vida, roubo, furto e invasão, em diferentes cidades e até em diferentes países. Em alguns episódios, os crimes envolviam pessoas e circunstâncias completamente distintas. Não havia uma testemunha que apontasse para uma única mulher, nem outros vestígios que mostrassem claramente que a mesma pessoa havia passado por todos aqueles locais. Mesmo assim, o DNA continuava aparecendo.


A situação ganhou uma dimensão ainda maior em 25 de abril de 2007, quando a policial alemã Michèle Kiesewetter, de 22 anos, perdeu a vida de forma intencional em Heilbronn. Ela estava dentro de uma viatura policial quando foi atingida na cabeça. Outro policial que estava no veículo também foi baleado e sobreviveu. Durante a investigação, o mesmo perfil feminino apareceu entre os vestígios analisados.


A polícia criou uma força-tarefa para investigar o crime da policial e tentar localizar a mulher cujo DNA aparecia nos diferentes crimes. A investigação passou a tratar aquela pessoa como uma criminosa extremamente difícil de identificar. 


A investigação cresceu tanto que, em janeiro de 2009, a recompensa por informações que ajudassem a localizar o Fantasma chegou a 300 mil euros. 


A grande virada aconteceu em março de 2009, durante uma investigação que não tinha relação direta com a suposta criminosa. Investigadores trabalhavam para identificar um corpo e analisaram materiais relacionados a um homem que havia passado por procedimentos de identificação usando impressões digitais. Quando o material biológico associado à impressão foi analisado, apareceu novamente o DNA do Fantasma.


Os investigadores sabiam que aquela impressão digital era de um homem, mas continha o perfil genético da mulher misteriosa. Aquilo não fazia sentido. Ela não poderia simplesmente ter deixado seu DNA ali da mesma maneira que havia deixado nos locais de dezenas de crimes.


A partir desse resultado, os investigadores pensaram na possibilidade de que o problema estivesse no material utilizado para coletar as amostras. Eles começaram a analisar os próprios cotonetes usados nas coletas forenses. E o mesmo perfil genético feminino apareceu em um cotonete que ainda não tinha sido utilizado em nenhum local de crime.


Aquele material genético não tinha sido deixado pela suposta criminosa na cena do crime. O DNA já estava no instrumento utilizado pelos investigadores para coletar as amostras.


A partir daí, os investigadores conseguiram rastrear o material até uma empresa envolvida na produção e embalagem dos cotonetes utilizados na coleta de vestígios.


A investigação revelou que os cotonetes haviam sido contaminados antes de chegarem às mãos dos policiais. O DNA pertencia a uma mulher que trabalhava em uma empresa envolvida na fabricação ou embalagem do material. Ela não tinha relação com os crimes investigados. Seu DNA simplesmente havia chegado aos cotonetes durante o processo de produção ou preparação.


Os investigadores chegavam a uma cena de crime, utilizavam o cotonete para recolher material biológico e levavam a amostra ao laboratório. O laboratório encontrava DNA feminino e registrava aquele perfil. Como o mesmo perfil já existia em outros casos, os sistemas de investigação faziam uma nova associação. Assim, crimes diferentes pareciam estar ligados por uma única mulher.


Mas o DNA não tinha vindo da cena do crime. Ele já estava no instrumento utilizado para coletar a evidência.


A descoberta foi anunciada em março de 2009. A promotoria de Heilbronn afirmou que o DNA encontrado nos aproximadamente 40 locais de crime não pertencia a uma participante dos crimes. 


O caso revelou uma diferença importante entre duas regras sanitárias que pareciam equivalentes: um material podia ser considerado estéril e, ainda assim, carregar DNA humano. A esterilização eliminava microrganismos, mas não material genético. Os cotonetes utilizados na coleta forense precisavam atender a uma exigência diferente, porque qualquer DNA presente antes da coleta podia acabar sendo interpretado como parte da evidência encontrada no local do crime.


Mas havia uma questão que continuava separada da história dos cotonetes: a morte da policial Michèle. A investigação pode seguir outro caminho. Em 2011, a descoberta de uma organização terrorista neonazista conhecida como NSU, levou as autoridades alemãs a relacionar o crime ao grupo. 


Fontes:


  • https://www.iso.org/news/2016/07/Ref2094.html
  • https://www.zeit.de/online/2009/14/benecke-interview-wattestaebchen
  • https://www.zeit.de/online/2009/14/phantom-fahndungspanne
  • https://www.zeit.de/online/2009/14/wattestaebchen-panne
  • https://www.zeit.de/online/2009/14/oesterreich-wattestaebchen
  • https://www.tagesschau.de/tagesthemen/video-ts-111606.html
  • https://www.tagesspiegel.de/gesellschaft/panorama/ratsel-um-phantom-ist-gelost-3792631.html
  • https://www.n-tv.de/panorama/71-jaehrige-Packerin-enttarnt-article67815.html
  • https://www.presseportal.de/pm/70568/1377775
  • https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1875176809000249
  • https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1875176811000230
  • https://time.com/archive/6946145/germanys-phantom-serial-killer-a-dna-blunder/